Syrah do Chile x Malbec da Argentina!

Publicado por Blog Vinho SIM em 5.5.12 com 1 comentário

Nos últimos 3 ou 4 anos (talvez até um pouquinho mais!) temos acompanhado um crescente número de grandes vinhos chilenos feitos com a uva Syrah (ou Shiraz), algo que me tem chamado bastante a atenção.
Todos sabemos da vocação chilena em produzir excepcionais vinhos com Cabernet Sauvignon, do grande empenho da mídia em destacar a Carmenère, da crescente reputação dos brancos dos Vale de Casablanca e San Antonio e de diversos outros grandes destaques da vitivinicultura chilena, mas os Syrah sempre me deixaram com uma curiosidade maior ...
Há tempos venho buscando informações em livros, revistas especializadas e jornais chilenos, bem como opiniões em sites e blogs, mas tenho encontrado menos informações e opiniões que gostaria, então, em janeiro último (2012), aprovetando uma viagem ao Chile, resolvi tentar matar minha curiosidade e chegar às minhas próprias conclusões.
Sem o tempo desejado para poder visitar todas as regiões e vinícolas que tinha vontade, elegi o Vale do Maipo e o Vale do Colchágua, tradicionalmente grandes produtores de Cabernet Sauvignon, como prioridades de visita (leia sobre algumas delas no menu Degustações & Viagens). Não me arrependi e formei uma opinião.

É fato que a Syrah vem crescendo no mundo todo e que, desde que saiu do Rhône, na França (há outras versões sobre sua origem!), para ganhar o mundo, nunca foi tão aclamada como nos dias atuais. Nos EUA, por exemplo, saiu de pouco mais de 150 hectares plantados na década de 1990 para algo em torno de 6400 hectares no início dos anos 2000, um cresimento de mais de 40 vezes! Na Europa, países como Portugal, Itália e Espanha vêm aumentando suas produções desta cepa e já têm produzido, inclusive, varietais Syrah que há pouco tempo atrás seriam inimagináveis. E o que dizer da França? Após uma estranha desvalorização por volta dos anos 1950, a Syrah “voltou” com tudo, especialmente com a recente venda, num leilão, de uma caixa de 12 garrafas do “Hermitage La Chapelle” de Paul Jaboulet, safra 1961, considerada a caixa de vinho mais cara da história, sempre citado como um dos mais prestigiados de todos os tempos e escolhido há alguns anos como um dos 12 mais importantes vinhos de todos os tempos pela revista norte-americana Wine Spectator. Citar a Austrália seria desnecessário já que é um país em que a Syrah impera e possui plantações desde a década de 1930.

Finalmente chegamos à América do Sul. E quem largou na frente por aqui? O Chile, claro! E por quê? O que há de tão especial nesta cepa?


As características profundo, denso, aromático, rico, redondo, etc já me dariam argumentos  suficientes para investir na Syrah, mas o que mais me chamou a atenção nas conversas com sommeliers, produtores, enólogos e demais membros do meio vitivinícola no Chile foi a enorme preocupação com a Argentina. Isso mesmo, com a Argentina! As constantes piadinhas e brincadeiras com o país vizinho ainda existem, mas aquela segurança toda que o Chile demonstrava quando comparava seus vinhos aos argentinos está sendo substituída por um certo ar de preocupação com o crescimento em quantidade e principalmente em qualidade dos vinhos dos hermanos.
Há pouco tempo a Argentina produzia Malbecs muito bons e alguns outros exemplares raramente significativos. O aparecimento de brancos superaromáticos produzidos com a Torrontès, os ótimos resultados com a Cabernet Sauvignon e com a Chardonnay, as felizes experiências com a Pinot Noir e algumas cositas mas, fizeram os chilenos se mexerem! Ouvir “se os argentinos estão fazendo Cabernets capazes de serem comparados aos nossos, temos que fazer algo para confrontar seus Malbecs” de sommeliers e enólogos no Chile não é incomum.
Manter a excelência na produção da Cabernet Sauvignon, investir na produção de brancos aromáticos a partir de Viognier e tentar apresentar “novidades” como varietais de Petit Verdot e Carignan são ótimos para manter o Chile na vanguarda da vitivinicultura mundial, mas não suficientes para fazer frente aos poderosos Malbecs argentinos, até então quase sem concorrência. Quase! Eis que uma lâmpada se acende: a Syrah!

Notando o crescente mercado, os produtores chilenos investiram tempo e dinheiro para melhorar a produção desta cepa, que já existe há muitos anos no Chile, mas que raramente foi tratada como protagonista.
Na minha compreensão, os grandes resultados obtidos pelo Chile com a Syrah são uma tentativa de criar uma concorrência para os Malbecs argentinos que, até então, vinham reinando quase solitários em seu estilo denso-frutado-rico-redondo-aromático na América do Sul e quiçá no mundo. E uma tentativa muito bem sucedida, pelo menos em termos qualitativos. Não encontrei ainda dados estatísticos para mostrar se o gradativo aumento de venda dos Syrahs chilenos tem começado a incomodar os argentinos, ou se tem sido maior que o aumento de venda dos Malbecs argentinos, mas tenho convicção que mais novidades virão por aí, basta notar a crescente gama de opções de vinhos premium e superpremium provenientes desta maravilhosa casta no mercado. Como exemplo temos o Gravas del Maipo, recente lançamento da Concha y Toro, o Reserva da Viña Falernia,  o Payen da Tabalí, o Folly da Viña Montes (veja em Viña Montes - Chile), todos eles da safra 2007, além do Antu Ninquen da Viña MontGras (Antu Ninquen - 2009), o Seleccion del Viticultor da Laura Hartwig, além de muitos outros.

Selección del Viticultor Syrah 2009, da Laura Hartwig
Folly 2007, da Viña Montes
Não sei se minhas conclusões estão certas ou erradas, mas sei que estou adorando essas novidades chilenas. Fã dos syrahs há muito tempo, acho fantástico que mais e mais países se dediquem a produzir excelentes exemplares com esta maravilhosa uva.

E você, caro leitor, o que pensa desse do confronto Syrah do Chile versus Malbec da Argentina? Já havia pensado nisso? Tem a mesma convicção que eu ou acredita que é apenas uma coincidência?
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