Vertical Ícones do Chile - Uma década de grandes vinhos!

Publicado por Blog Vinho SIM em 14.11.13 com Sem comentários

São Paulo recebeu na tarde do dia 29 de outubro mais um evento pra lá de especial, a degustação vertical Ícones do Chile, que reuniu 12 amostras dos maiores vinhos do segmento ultrapremium do nosso vizinho.

Depois de algumas ótimas ações para tratar das novas Subdenominações do Chile, desta vez a Wines of Chile reuniu alguns especialistas, jornalistas e críticos em torno de uma questão inicial, lançada pelo mediador, Patrício Tápia: "os vinhos chilenos evoluem bem?"

O crítico chileno foi acompanhado pelos "pais/mães" (enólogos) de alguns dos vinhos presentes, como Ana Maria Cumsille (Altair), Angélica Carrasco (Casa Lapostolle), Cecília Torres (Santa Rita) e Gustavo Hormann (Viña Montes), que engrandeceram muito o evento, trazendo muita informação e  riqueza de detalhes que as fichas técnica jamais apresentam.

Para embasar a resposta, a ideia foi trazer as amostras em 6 pares, propondo 6 mini-verticais com vinhos de safras com alguns anos de diferença e ainda com o cuidado, segundo Tápia, de serem safras com características similares para que o comparativo fosse o mais correto possível. 

Vamos aos vinhos.

Da esquerda para a direita: Montes Folly, Lapostolle Clos Apalta, Altaïr, Errazuriz Don Maximiano, Concha y Toro Don Melchor e Santa Rita Casa Real. Foto: CH2A Comunicação.

A primeira mini-vertical foi com o Don Maximiano Founders Reserve, da Viña Errázuriz, localizada no Vale do Aconcágua, com as safras 2002 e 2010.


E que começo! Como já era de se esperar, dois grandes vinhos, mas, com estilos diferentes.

2010 é um corte de 78% Cabernet Sauvignon, 10% Carmenère, 7% Petit Verdot e 5% Syrah, tem um estilo mais "moderno", novo mundo, com grande concentração de fruta em compota, tostado e notas de trufas com um belo frescor e ótima persistência, enquanto 2002, um 100% Cabernet Sauvignon, mostrou-se mais elegante e refinado, com um incrível mentolado e notas de caixa de lápis e alcaçuz e mostrou-se que o 2002. O passar dos anos estão fazendo bem a este vinho.

Não só gostei mais do 2002, como o considerei um dos "TOP 3" da prova. 1 x 0 pros "velhinhos"!


Do Aconcágua, partimos partimos alguns quilómetros para o Sul, chegando ao Vale do Maipo, onde passamos ao famosíssimo Don Melchor, da Concha y Toro, com as safras 1996 e 2010.


O vinho é um verdadeiro ícone chileno no mercado brasileiro e mundial e seu currículo com inúmeras premiações dispensa maiores apresentações.

2010, corte de 3% Cabernet Franc com 97% de Cabernet Sauvignon, apresentou-se extremamente fresco, com nuances minerais e uma "pitada" de casca de laranja, que dá um toque levemente amargo, trazendo um certo mistério muito interessante ao vinho. Já o 1996, apesar dos "já" 17 anos ainda possui uma acidez que dá aquela "vontade de continuar bebendo" que eu aprecio muito no vinho. Muito elegante, com notas de tabaco e menta e final saboroso

Essa "disputa" ficou um pouco desigual, já que o 1996 está em seu esplendor, prontíssimo para ser consumido, enquanto o 2010 ainda é uma criança. Apesar de toda a exuberância do 1996, aposto num amadurecimento ainda melhor do 2010, mas, no momento, fico com o 1996! 2 x 0 pros "velhinhos"!


Ainda no Vale do Maipo, seguimos com o Casa Real, da Viña Santa Rita, das safras 2002 e 2010.


2010, um "puro sangue" Cabernet Sauvignon, traz aromas de frutas em compota e notas do tostado da madeira, mas impressiona mesmo quando vem pra boca, mostrando uma acidez crocante e boa mineralidade, que me dá a nítida sensação de uma grande evolução nos próximos anos, ainda mais esperada quando se passa para a prova da safra 2002, que eu defino como muito mais que um 100% Cabernet Sauvignon! O vinho é, ao meu ver, um dos maiores exemplos do que o Chile pode fazer com esta casta, uma aula de vinificação, quase que um tratado de como fazer um Cabernet Sauvignon e, ainda mais, uma das maiores mostras de como seus vinhos podem evoluir no decorrer dos anosMuito complexo e sedoso. Um daqueles vinhos que parecem sempre prontos para o consumo, pois sua evolução é constante. Ao meu ver, o melhor do painel. 3 x 0 pros "velhinhos"! Virou goleada!


Continuando nossa viagem sentido Sul chileno, partimos do Vale do Maipo para o Vale do Cachapoal, chegando à vinícola Altaïr, a mais jovem da degustação, e provando os vinhos ícones da vinícola das safras 2002 (a primeira da história) e 2010


Esta foi a mini-vertical que me deu mais condições de avaliar a evolução de um vinho, já que os vinhos da Altaïr foram os que se mostraram mais semelhantes, com um estilo bem definido

Eu já havia provado duas safras deste vinho, a 2004 e a 2006, e inclusive destacado a capacidade de evolução do vinho durante evento da importadora (Grand Cru) deste ano (relembre) que agora se comprovou ainda mais.

O 2010, corte de 76% Cabernet Sauvignon13% Syrah, 7% Carmenère e 4% Petit Verdotassim como seus contemporâneos, mostrou uma ótima concentração de frutas vermelhas e negras e boas notas provenientes do envelhecimento em carvalho que, claramente, vem sendo cada vez mais ajustado aos vinhos, já que no 2002, corte de 86% Cabernet Sauvignon7% Carmenère e 7% Merlot o uso da madeira foi bem maior. Se o 2010 evoluir como o 2002 será um grande vinho, mas acredito, baseado nas impressões de acidez e tanicidade, que este terá uma evolução ainda mais longa e brilhante que o "progenitor" da vinícola. Gostei mais do 2010! 3 x 1 pros "velhinhos"! Reação?


Depois de passar pelos Vales de Aconcágua, Maipo e Cachapoal, chegamos ao Colchágua, mais especificamente à sub-região de Apalta, uma das minhas favoritas do Chile.

Estando em Apalta, partimos para a degustação de um dos grandes ícones locais: o Clos Apalta, das safras 2002 e 2010, da Casa Lapostolle, que tive a oportunidade de visitar pouco tempo atrás (leia o artigo da visita).


O 2010, corte de 71% Carmenère, 18% Cabernet Sauvignon e 11% Merlot é uma verdadeira bomba de frutas e madeira, muito bem equilibradas por ótima acidez. Lembro-me de ter provado a safra 2009 deste vinho na visita que fiz à Lapostolle e de não ter me encantado tanto. O 2002, corte de 85% Carmenère/Merlot e 15% Merlot ainda possui boa acidez e continua mostrando a presença da madeira, neste caso já muito bem integrada com o vinho, e apresentou uma deliciosa nota de chocolate amargo que confere elegância ao vinho. Nesta disputa, deu "empate". 


Da Lapostolle, andamos pouquíssimos quilômetros até chegar à Viña Montes, outra que tive a felicidade de conhecer  (leia o artigo da visita) e provar alguns de seus ótimos vinhos. O escolhido para esta prova foi o Folly, das safras 2000 e 2010.



O 2010100% Syrah, completa meu quadro "TOP 3", com uma explosão de frutas negras permeadas por especiarias, acompanhadas de algum toque mineral e uma acidez pungente, que, somada à estrutura quase mastigável, tornam este vinho, ao meu ver, um dos grandes exemplares do que a Syrah do Vale do Colchágua pode apresentar ao mundo. Certamente crescerá muito com o passar dos anos! O 2000, também 100% Syrah, apresentou notas licorosas acompanhadas de especiarias doces, porém menos acidez do que eu gostaria, acredito que já alcançou seu auge e não deva melhorar nos próximos anos. A "disputa" termina 3 x 2 pros "velhinhos"!


Conclusões

1.
Se havia qualquer dúvida sobre a capacidade de envelhecimento "dos vinhos chilenos", certamente ela foi esclarecida, pois não houve um vinho sequer, das safras "antigas", que não estava ótimo!
Mas por que "dos vinhos chilenos"? É importante frisar que os vinhos apresentados na degustação são todos vinhos ícones do Chile, posicionados na faixa de preços entre R$ 350,00 ~ R$ 500,00, por isso, não considero adequado generalizar para "os vinhos chilenos evoluem bem". Para esta conclusão, seria necessária uma prova com vinhos de outras faixas de preço, pelo menos um pouco mais intermediária, já que comumente não se espera evolução de vinhos do dia a dia. Fica a sugestão para a Wines of Chile.

2.
O resultado final da minha "disputa" é passível de uma observação: 3 x 2 pros "velhinhos" (e um empate). Por que? Ao meu ver, os 3 jovens que "perderam" têm um ótimo potencial de envelhecimento e certamente evoluirão muito nos próximos anos, talvez até superando seus predecessores, mas o que me chamou mesmo a atenção foram os 2 que "venceram" suas disputas, já que tiveram pela frente grandes "adversários". Estes vinhos, Altaïr 2010 e Folly 2010, são vinhos para se ficar de olho e aproveitar qualquer oportunidade de compra, pois mostraram um incrível potencial e, certamente, evoluirão muito nos próximos anos e, quicá, décadas.


E foi assim. 

A divulgação e organização ficou a cargo da sempre muito eficiente CH2A Comunicação, que mais uma vez acertou em todos os detalhes.
Deixo aqui meus parabéns para a Alessandra Casolato e toda equipe!


Que Baco nos ilumine!
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