segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Achei no supermercado: Doña Dominga Gran Reserva Syrah 2009 e 2010!



Andava eu por um supermercado aqui de Santo André, quando me deparei com uma grande divulgação dos vinhos Doña Dominga.

Nunca havia provado os vinho e a única informação que eu tinha sobre eles é que são uma marca pertencente à renomada vinícola chilena Casa Silva

De cara, fiquei com um pé atrás em comprá-los, pois não costumo ter muitas experiências positivas com vinhos chilenos desta feixa de preço - em torno de R$ 30,00 -, no entanto, minha curiosidade falou mais alto e, por se tratar de vinhos categorizados como Gran Reserva, decidi experimentar. A oportunidade de fazer uma espécie de degustação mini-vertical das duas safras disponíveis - 2009 e 2010 - também foi determinante.

A marca Doña Dominga nasceu em meados de 1999 como um projeto moderno e inovador, cujo principal objetivo era introduzir no mercado vinhos de ótima relação qualidade-preço, produzidos a partir de vinhedos das hoje subdenominações Andes e Costa (leia mais sobre as novas subdenominações chilenas neste artigo) do Vale do Colchágua

O foco é a produção de vinhos de caráter frutado fresco, com taninos macios e bom equilíbrio.

Levando-se em conta os Gran Reserva Syrah que provei, posso concluir: conseguiram.

Vamos às impressões.


Gran Reserva Syrah 2009


Creio que esteja pronto para consumo e não deva melhorar nos próximos anos. Mostrou notas de frutas negras maduras e especiarias, com um apimentado bem típico da Syrah e talvez ainda mais dos syrahs do Vale do Colchágua. Na boca confirma as notas frutadas, tem bom corpo e o frescor que se espera dos vinhos da subdenominação Costa. Boa persistência. Gostoso de beber. É uma grande pedida para pizzas condimentadas e também para churrascos.

R$ 28,90 | Álcool 14%

Avaliação Vinho SIM: ÓTIMO (15/20) / Relação QUALIDADE-PREÇO: ÓTIMA

Gran Reserva Syrah 2010


Também está pronto para consumo, mas certamente ainda vai melhorar nos próximos dois anos. As notas de frutas negras maduras e especiarias e o apimentado da Syrah também aparecem aqui, tanto na nariz quanto na boca, mas neste vinho eles vêm acompanhados de um frescor com toque mineral que não apareceu no 2009. Mostrou-se também mais elegante, com um potencial de guarda que não percebi no seu antecessor. Pode ser considerado uma grande compra

R$ 28,90 | Álcool 14,5%

Avaliação Vinho SIM: ÓTIMO (16/20) / Relação QUALIDADE-PREÇO: GRANDE COMPRA

Que Baco nos ilumine!

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Os vinhos biodinâmicos da Ramos Pinto - Entrevista com Jorge Rosas, gerente de exportação da vinícola



"Não vamos colocar nos rótulos que os nossos vinhos são biodinâmicos, porque queremos vender nossos vinhos por serem bons e não por serem biodinâmicos".

Jorge Rosas, gerente de exportação da vinícola Ramos Pinto


No dia 12 de agosto último tive o prazer de almoçar com Jorge Rosas, um verdadeiro representante de toda a tradição da vinícola Ramos Pinto, sobrinho-bisneto do fundador, Adriano Ramos Pinto, e hoje gerente de exportação desta marca que é uma das mais prestigiadas do mundo.

Durante o almoço falamos sobre diversos assuntos, como a história centenária da Ramos Pinto no Brasil, os "novos" vinhos do Douro, a contribuição acadêmica que a vinícola teve e tem para os vinhos portugueses,  harmonizações com vinho do Porto, vinhos biodinâmicos, dentre outros e seguimos para a degustação de alguns rótulos que estão à disposição aqui no Brasil. Para saber mais de como foi essa conversa, clique aqui e leia o post com a 1ª parte da entrevista que fiz com Jorge Rosas.

Falando sobre vinhos bionâmicos, Rosas me contou que a Ramos Pinto foi a pioneira na plantação de vinhedos orgânicos no Douro e conta hoje com um total de 25 hectares desses vinhedos.

Será que em breve teremos um "vinho do Porto orgânico/biodinãmico"?

Assista a seguir à 2ª parte da entrevista concedida ao Vinho SIM.




Que Baco nos ilumine!

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Wine IN 2013 - Challenge Brasil x América Latina até R$ 50,00: resultados comentados


Sempre fui um entusiasta do vinho brasileiro. Entusiasta.

Desde que comecei a gostar de vinhos e participar de cursos de formação, palestras e degustações nos nossos vizinhos Argentina, Chile e Uruguai, acompanhadas de inúmeras visitas às vinícolas destes países, sempre mantive os "nossos" vinhos por perto, dentro de um raio de ação que meu radar pudesse acompanhar o iminente crescimento e desenvolvimento dos últimos anos, principalmente no quesito qualidade.

Visitas às vinícolas brasileiras e provas constantes dos nossos vinhos ajudaram a desenvolver esse "radar" e no decorrer dos últimos anos pude formar uma opinião sobre o vinho nacional e seu papel na América do Sul e no mundo. Opinião essa que, felizmente, não é absoluta e tampouco imutável, mas que muitas vezes não agrada. Mas opinião é assim mesmo, né? Não é feita pra agradar.

Com um pouco de atenção se percebe que há diversos outros entusiastas do vinho produzido em nossas terras, mas há também um sem número de oportunistas que escreve de forma irresponsável e tendenciosa, iludindo o consumidor com matérias cujo conteúdo e resultados são, no mínimo, duvidosos. Por isso é importante separar o que é entusiasmo pelo vinho nacional do que é oportunismo. É importante valorizar quem é sério, quem de fato acrescenta algo ao vinho nacional.

E foi com gente séria e com gana de debater o vinho nacional que aconteceu aqui em São Paulo, há duas semanas (22 e 23 de agosto/2013), paralelamente ao Circuito Brasileiro de Degustação, o 1º Wine In, organizado pelo Breno Raigorodsky, que tive a oportunidade de conhecer há pouco tempo num almoço intermediado por um amigo em comum. Quis o destino que o assunto Wine In surgisse na mesa e seu idealizador pudesse falar um pouco sobre o evento, do qual eu sabia pouco, mas que o slogan "a cada ano um mergulho no vinho" e o papo de ser "um encontro sério sobre o vinho brasileiro e seu potencial" me parecia bem interessante.

A programação foi muito bacana, com diversas palestras e debates, mas o que me chamou a atenção de verdade foram as degustações às cegas intituladas Challenge Brasil x América Latina, com duas modalidades: abaixo dos R$ 50,00 e acima dos R$ 50,00.

Cada uma delas foi divida da seguinte forma.

Inicialmente um júri especial (composto por  Beto Duarte, Celito Guerra, Horst Kissman, Jean Pierre Rosier, Jeriel Costa, João Filipe Clemente, José Maria Santana, José Luiz Pagliari, Jorge Carrara, Juliana Reis, Manuel Luz, Marcio Oliveira, Mario Telles, Mauro Zanuz, Nicola Massa, Silvia Mascella, Silvia Franco, Suzana Barelli, Amy Friday, Andrew Shaw, Claudio Salgado, Charles Byers, Daniel Marquez, James Lapsley, Olivier Bourse e Roberto Rabachino) escolheu às cegas os 5 vinhos - de um total de 18 amostras pré-selecionadas a partir de notas/avaliações obtidas em publicações diversas que seriam os representantes do Brasil em cada categoria. Posteriormente estes vinhos se juntaram a 10 representantes da Argentina e Chile e foram submetidos a outra prova às cegas, agora realizada por dois júris de forma independente, o mesmo júri especial e um júri popular, formado por participantes diversos que se inscreveram previamente ou que foram convidados pelo Breno durante a visita ao CBD. Nesta etapa o objetivo era posicionar os vinhos brasileiros frente aos seus concorrentes.

Participei das duas degustações, mas vou me ater a escrever sobre aquela dos vinhos abaixo dos R$ 50,00, uma vez que já há material farto sobre a outra, em que os vinhos brasileiros se saíram bastante bem, por sinal. Para quem se interessar por estes resultados sugiro a leitura do artigo "Conheça os vencedores do primeiro “Wine In” São Paulo: dois vinhos brasileiros e um chileno" (aqui) publicado pelo Jeriel da Costa no seu blog Club do Jeriel.

Nesta degustação provamos, na ordem:

Zorzal - Terroir Único Malbec 2011 (Argentina)
Dal Pizzol - Do Lugar Cabernet Franc 2011 (Brasil)
Humberto Canale - Merlot 2011 (Argentina)
Santa Rita - Reserva Carmenere 2009 (Chile)
Leyda - Classic Reserve Syrah 2011 (Chile)
Pizzato - Reserva Merlot 2010 (Brasil)
Casa Perini - Tannat 2011 (Brasil)
De Martino - 347 Single Vineyard Syrah 2011 (Chile)
Dona Paula - Los Cardos Malbec 2011 (Argentina)
Monte Paschoal - Dedicato Cabernet Sauvignon 2011 (Brasil)
Morandé Pionero - Cabernet Sauvignon 2011 (Chile)
Las Moras - Malbec 2011 (Argentina)
Finca La Linda – Bonarda 2011 (Argentina)
Ramirana Reserva – CS + Carmenere 2011 (Chile)
Salton Intenso Merlot 2009 (Brasil)

Nesta categoria, ao contrário do que havia acontecido no Challenge Brasil x América Latina acima de R$ 50,00, deu Argentina. A seguir, os TOP 5.

O TOP 5 do Júri Especial:

1. Las Moras - Malbec 2011 - Argentina (R$ 29,00) - 87 pontos
2. Humberto Canale - Merlot 2011 - Argentina (R$ 49,00) - 86,39 pontos
3. Ramirana Reserva – CS + Carmenere 2011 - Chile (R$ 45,00) - 86,33 pontos
4. Dona Paula - Los Cardos Malbec 2011 - Argentina (R$ 45,00) - 86,11 pontos
5. Monte Paschoal - Dedicato Cabernet Sauvignon 2011 - Brasil (R$ 55,00 ?) - 85,94 pontos

O TOP 5 do Júri Popular:

1. Las Moras - Malbec 2011 - Argentina - 83,34 pontos
2. Humberto Canale - Merlot 2011 - Argentina - 80,7 pontos
3. Salton - Intenso Merlot 2009 - Brasil (R$ 42,00) - 80,51 pontos
4. Finca La Linda Bonarda - Argentina (R$ 41,00) - 80,17 pontos
5. Casa Perini - Tannat 2011 - Brasil (R$ 30,00) - 78,61 pontos

O TOP 5 do Vinho SIM:

1. Las Moras - Malbec 2011 - Argentina - 90,5 pontos
2. Finca La Linda Bonarda 2011 - Argentina - 90 pontos
3. Dona Paula - Los Cardos Malbec 2011 - Argentina - 90 pontos
4. Humberto Canale - Merlot 2011 - Argentina - 88 pontos
5. Casa Perini - Tannat 2011 - Brasil - 87,5 pontos

Note que no TOP 5 do júri especial, o brasileiro mais bem colocado apareceu só na 5ª posição com o Monte Paschoal Dedicato Cabernet Sauvignon 2011, um vinho que, por sinal, não encontrei em nenhum lugar por menos de R$ 50,00.  No TOP 5 do júri popular os brasileiros se saíram um pouco melhor, ocupando duas posições, enquanto no TOP 5 do Vinho SIM (elaborado por mim e por minha parceira Talita Martinez) o brazucas mais bem colocado apareceu também na 5ª posição com o Casa Perini Tannat 2011.

Interessante também notar que o campeão foi o mesmo nos três grupos, o Especial (especialistas), o Popular e o Vinho SIM.

Vale aqui uma reflexão sobre estes resultados, especialmente se compararmos o desempenho que os vinhos brasileiros tiveram nesta categoria com o que tiveram na categoria acima de R$ 50,00.

Entre os vinhos abaixo dos R$ 50,00 não tivemos destaque. "Aparecemos" somente no meio da tabela e, embora tenhamos ficado à frente de alguns vinhos dos nossos vizinhos, estamos falando de produtos da mesma faixa de preço.

Este resultado é realista? 
O que acontece com nossos vinhos de até R$ 50,00? 

Quero falar dos vinhos desta faixa de preço porque é aí que, ao meu ver, as vinícolas deveriam empenhar seus maiores esforços, é aí nesta faixa de preço que o consumo de vinhos no Brasil pode aumentar nos próximos anos.

É claro que sou completamente a favor do velho (e sempre atual) debate sobre os impostos que incidem sobre os nossos vinhos e compartilho da angústia dos produtores brasileiros com relação à produção de vinhos com preços competitivos e é claro também que esta discussão poderia ser invocada aqui - mais ainda agora que o Governo de São Paulo nos presenteou com mais um aumento de imposto (ST), [canalhas!] - mas, apesar de acreditar que devemos continuar batendo nesta tecla e exigindo mudanças, quero refletir sob outra ótica.

Será que de fato os (abusivos) impostos são os únicos e/ou maiores vilões no nosso mercado?

Brigar contra os impostos é uma necessidade, mas debater sobre a capacidade de produzirmos com preços competitivos, apesar de todas as adversidades, também é preciso. Além do mais, não podemos esquecer de todos impostos e custos que as importadoras têm para trazer nossos "concorrentes" para cá.

Ainda assim, tenho provado e escrito sobre diversos ótimos vinhos nacionais com preços abaixo dos R$ 50,00 que, pela metodologia que foi utilizada para a seleção das amostras - diga-se de passagem bem honesta e transparente -, não estiveram presentes nas provas, mas que tenho certeza que poderiam fazer bonito frente aos nossos vizinhos.

Afinal, com o que temos hoje, é possível produzirmos vinhos de até R$ 50,00 no Brasil para concorrer de igual para igual com argentinos, chilenos e uruguaios? Como a Perini, com seu Tannat 2011, a Angheben, com seu Teroldego, a Don Laurindo, com seu Merlot Leve, a Gheller, com seu Tannat, o Marco Daniele, com seu Prelúdio - só para citar alguns - conseguiram produtos de tanta qualidade nesta faixa de preço? São golpes de sorte, safras excepcionais, estão trabalhando no vermelho o tempo todo, ... ?

Essas e outras perguntas poderão ser as norteadoras de um artigo que publicarei em um futuro breve ...


Viva o vinho nacional e

que Baco nos ilumine!

Qual dos vinhos seguir você gostaria de ver comentado aqui no Vinho SIM?